fascite plantar

Fascite plantar: a causa da dor no calcanhar ao acordar

Se os primeiros passos da manhã parecem uma facada no calcanhar, você provavelmente está lidando com fascite plantar. A boa notícia vem da ciência: mais de 90% das pessoas melhoram com tratamento sem cirurgia, segundo a Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS). Neste artigo, você vai entender o que é a fascite plantar, por que ela aparece, o que realmente funciona no tratamento e quando é hora de procurar um ortopedista.

O que é fascite plantar?

A fáscia plantar é uma faixa espessa de tecido fibroso que vai do calcanhar até a base dos dedos, na sola do pé. Ela funciona como uma corda de arco, sustentando o arco do pé e absorvendo impacto a cada passo.

A fascite plantar acontece quando essa estrutura é sobrecarregada repetidamente e desenvolve pequenas lesões perto da sua inserção no calcâneo (o osso do calcanhar). O nome sugere inflamação, mas estudos de anatomia patológica, como o clássico de Lemont e colaboradores (2003), mostraram que o problema é mais um processo degenerativo do tecido do que uma inflamação clássica. Na prática, isso explica por que só tomar anti-inflamatório raramente resolve.

É um problema extremamente comum: cerca de 1 em cada 10 pessoas terá fascite plantar em algum momento da vida, e ela é a causa mais frequente de dor na região do calcanhar em adultos.

Mulher com dor no calcanhar ao acordar, sintoma típico de fascite plantar

Sintomas: como saber se é fascite plantar

O quadro típico é bastante característico:

  • Dor na parte de baixo do calcanhar, às vezes irradiando pela sola do pé.
  • Dor forte nos primeiros passos ao levantar da cama, que melhora após alguns minutos de caminhada.
  • Dor que volta depois de longos períodos sentado ou em pé, ou no fim do dia.
  • Piora após atividade física intensa (geralmente depois do exercício, não durante).
  • Sensação de rigidez na sola do pé.

Formigamento, queimação que sobe pela perna ou dor noturna intensa não são típicos de fascite plantar e merecem avaliação médica, pois podem indicar outras causas, como compressão de nervos.

Causas e fatores de risco

A fascite plantar é uma lesão de sobrecarga. Um estudo caso-controle publicado no Journal of Bone and Joint Surgery (Riddle e colaboradores, 2003) identificou os principais fatores de risco:

  • Encurtamento da panturrilha: pessoas com pouca flexibilidade do tornozelo (dorsiflexão reduzida) tiveram risco até 23 vezes maior. É o fator mais importante e também o mais tratável.
  • Excesso de peso: índice de massa corporal acima de 30 aumentou o risco em mais de 5 vezes.
  • Longos períodos em pé: profissões que exigem ficar horas em pé em superfícies duras, como professores, vendedores e profissionais de saúde.

Outros fatores frequentes: aumento rápido do volume de treino (muito comum em corredores de rua), calçados sem amortecimento ou muito gastos, pé plano ou pé cavo e idade entre 40 e 60 anos.

Fascite plantar e esporão de calcâneo são a mesma coisa?

Não, e esse é um dos mitos mais repetidos nos consultórios. O esporão é uma projeção óssea que aparece no raio-x de muitas pessoas com fascite plantar, mas ele não é o vilão da história. Cerca de 15% das pessoas sem nenhuma dor no calcanhar também têm esporão no raio-x, como mostra a revisão de Kirkpatrick e colaboradores no Journal of Anatomy (2017).

Em outras palavras: o esporão é uma consequência da sobrecarga crônica na região, não a causa da dor. Por isso, o tratamento não é “tirar o esporão”, e sim tratar a fáscia sobrecarregada. Já explicamos em detalhes no artigo sobre o que é o esporão de calcâneo.

Como o diagnóstico é feito

O diagnóstico da fascite plantar é essencialmente clínico: a história típica somada ao exame físico, com dor à palpação na parte interna do calcanhar, costuma ser suficiente.

O raio-x pode ser solicitado para afastar outras causas, como fraturas por estresse. A ultrassonografia e a ressonância magnética ficam reservadas para casos que não melhoram como esperado ou quando há dúvida diagnóstica, já que a dor no calcanhar também pode vir de tendinite no pé, compressão nervosa ou atrofia do coxim gorduroso do calcanhar. Cada caso precisa ser avaliado individualmente.

Tratamento da fascite plantar: o que a ciência mostra que funciona

Aqui vai o dado mais importante deste artigo: segundo a AAOS, mais de 90% dos pacientes melhoram em até 10 meses com medidas simples, sem cirurgia. A diretriz de prática clínica de dor no calcanhar (JOSPT, revisão de 2023) organiza as evidências, e o tratamento costuma combinar:

Alongamento específico (a base de tudo). Alongar a panturrilha e a própria fáscia plantar é a medida com melhor suporte científico. Um exemplo prático: sentado, cruze o pé dolorido sobre o joelho oposto, puxe os dedos do pé em direção à canela e segure 30 segundos, repetindo 10 vezes, 2 a 3 vezes por dia, especialmente antes de sair da cama.

Ajuste de carga. Reduzir temporariamente corrida e impacto, substituindo por bicicleta ou natação, sem parar de se mover.

Calçado e palmilhas. Tênis com bom amortecimento e suporte de arco. Palmilhas e calcanheiras de silicone podem ajudar a distribuir a pressão. Evite andar descalço em piso frio e duro durante a crise.

Gelo e analgesia. Gelo por 15 a 20 minutos após atividades ajuda no alívio. Medicamentos podem ser usados por curtos períodos, sempre com orientação médica.

Fisioterapia. Fortalecimento da musculatura do pé e da panturrilha, terapia manual e recursos como taping, conforme a diretriz da JOSPT.

Órtese noturna. A tala de uso noturno mantém a fáscia alongada durante o sono e pode reduzir aquela dor do primeiro passo em casos persistentes.

Ondas de choque. Para casos crônicos (mais de 6 meses) que não melhoraram com as medidas acima, metanálises de ensaios clínicos randomizados, como a publicada no Archives of Orthopaedic and Trauma Surgery (2019), mostram bons resultados da terapia por ondas de choque extracorpórea.

Infiltração com corticoide. Pode dar alívio em curto prazo em casos selecionados, mas tem riscos, como atrofia do coxim gorduroso e ruptura da fáscia. É uma decisão individualizada, que já discutimos no artigo sobre mitos e verdades das infiltrações articulares.

Cirurgia. Reservada a uma pequena minoria que não melhora após, em geral, 12 meses de tratamento bem conduzido. É exceção, não regra.

O que costuma atrasar a melhora: insistir no mesmo volume de treino com dor, usar calçado gasto, tratar só com anti-inflamatório e pular o alongamento, que é justamente a parte mais eficaz.

Fascite plantar em corredores: precisa parar de correr?

Nem sempre. Na fase aguda, reduzir volume e intensidade costuma ser necessário, mas o repouso absoluto prolongado não acelera a recuperação. A volta ao treino deve ser gradual, guiada pela dor: aumento de quilometragem lento, atenção redobrada à troca periódica do tênis e alongamento de panturrilha como rotina permanente. Corredores de rua de São Luís, que treinam muito em asfalto e calçadão, se beneficiam especialmente de variar superfícies e planilhas bem progressivas. Um profissional pode ajustar isso ao seu caso.

Quando procurar um ortopedista

Procure avaliação com um ortopedista se a dor no calcanhar dura mais de 2 a 3 semanas apesar das medidas iniciais, se está piorando, se dificulta trabalhar ou treinar, ou se vem acompanhada de formigamento, dormência, inchaço importante ou dor noturna. O diagnóstico correto muda o tratamento: nem toda dor no calcanhar é fascite plantar, e cada caso é individual.

Em São Luís, o Dr. Henrique Salgueiro Rios realiza avaliação completa da dor no calcanhar, do diagnóstico ao plano de tratamento personalizado. Conheça o consultório.

Perguntas frequentes sobre fascite plantar

Fascite plantar tem cura?

A grande maioria dos casos melhora completamente: mais de 90% dos pacientes ficam bem em até 10 meses com tratamento conservador, segundo a AAOS. A melhora é gradual e depende de constância no alongamento, ajuste de carga e calçado adequado. Casos persistentes têm opções adicionais eficazes, como ondas de choque.

O que piora a fascite plantar?

Continuar treinando com dor no mesmo volume, ficar muitas horas em pé em piso duro, andar descalço ou com calçado sem amortecimento, excesso de peso e encurtamento da panturrilha. Pular o alongamento diário é um dos principais motivos de o quadro se arrastar por meses.

Como aliviar a dor da fascite plantar rapidamente?

Antes de sair da cama, alongue a sola do pé puxando os dedos em direção à canela por 30 segundos. Use gelo por 15 a 20 minutos após atividades, prefira calçados com amortecimento e reduza temporariamente o impacto. O alívio consistente, porém, vem do tratamento continuado ao longo de semanas.

Fascite plantar e esporão de calcâneo são a mesma coisa?

Não. A fascite plantar é a sobrecarga da fáscia na sola do pé e é ela que dói. O esporão é uma alteração óssea vista no raio-x, presente inclusive em cerca de 15% de pessoas sem dor nenhuma. Tratar a fascite é o que resolve o sintoma, não remover o esporão.

Quanto tempo demora para a fascite plantar sarar?

Com tratamento adequado, muitos pacientes melhoram bastante em 2 a 3 meses, e mais de 90% estão bem em até 10 meses. Quadros de longa duração podem demorar mais e exigir recursos adicionais. Quanto mais cedo o tratamento começa, menor a chance de a dor se tornar crônica.

Posso caminhar ou correr com fascite plantar?

Caminhadas leves com bom calçado geralmente são permitidas. Corrida e impacto devem ser reduzidos na fase de dor e retomados de forma gradual, conforme a melhora. Bicicleta e natação são boas alternativas para manter o condicionamento. O ideal é individualizar essa progressão com orientação profissional.


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Referências científicas

  1. American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS). Plantar Fasciitis and Bone Spurs. OrthoInfo, 2022. Disponível em: https://orthoinfo.aaos.org/en/diseases–conditions/plantar-fasciitis-and-bone-spurs/
  2. Riddle DL, Pulisic M, Pidcoe P, Johnson RE. Risk factors for plantar fasciitis: a matched case-control study. Journal of Bone and Joint Surgery Am, 2003.
  3. Lemont H, Ammirati KM, Usen N. Plantar fasciitis: a degenerative process (fasciosis) without inflammation. Journal of the American Podiatric Medical Association, 2003.
  4. Koc TA, Bise CG, Neville C, et al. Heel Pain – Plantar Fasciitis: Revision 2023. Clinical Practice Guidelines. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy (JOSPT), 2023.
  5. Kirkpatrick J, Yassaie O, Mirjalili SA. The plantar calcaneal spur: a review of anatomy, histology, etiology and key associations. Journal of Anatomy, 2017.
  6. Li X, et al. Comparison of efficacy of shock-wave therapy versus corticosteroids in plantar fasciitis: a meta-analysis of randomized controlled trials. Archives of Orthopaedic and Trauma Surgery, 2019.
  7. Buchanan BK, Sina RE, Kushner D. Plantar Fasciitis. StatPearls, NCBI Bookshelf, atualização 2024.

Sobre o autor Dr. Henrique Salgueiro Rios | Ortopedista e Traumatologista | CRM-MA 5269 | RQE 954 | Membro Titular da SBOT (TEOT 10619) | Chefe do Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Hospital do Câncer do Maranhão

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individualizada.

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